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Motomix: sabadão moderninho no Ibirapuera

O ocaso do sábado no Ibirapuera. Foto: Alessandro Pinesso.
A tarde de sábado estava ensolarada, com pouco vento. Ou seja, ideal para encarar um show no Ibira, de grátis, patrocinado pela Motorola. A multinacional de celulares trouxe seis bandas, sendo três delas gringas, para cerca de seis horas de show para cerca de seis mil pessoas. Sobre as bandas locais, não tenho o que dizer, pois cheguei somente às 17h15, quando os ingleses do Fujiya e Miyagi já estavam tocando. Foi o melhor dos três shows. Uma fusão interessante de rock, pop e eletrônica, com uns toques de Kraftwerk bem sutis, melodias bacanas, som redondo. Gostei bastante, inclusive das projeções de pedras de dominó no fundo do palco, fazendo as vezes de cenário. Depois, um rolezinho básico, uma Skol básica e voltei para ver The Go! Team. Os ingleses são super empolgados, cheios de energia, e fazem um som na linha meio engraçadinho, que me lembrou Cansei de Ser Sexy. A mim, não empolgou. Não diria que a banda é ruim, mas não faz meu gênero. Antes do término da apresentação, mais um rolezinho e mais uma Skol. Aí, lá pelas 19h40, entrou o Metric. Baixei dois álbuns da banda e gostei, mas ao vivo não agradou muito. Tudo muito parecido, tudo meio morno demais, exceto pelas belas pernas da vocalista Emily Haines, com um vestido roxo curtíssimo. Pena que fiquei meio longe do palco...rs. Saí uns 10 minutos antes do final e, no caminho, uma Heinken básica e uma bolacha Piraquê. Afinal, já eram nove da noite e a fome estava batendo. Parabéns à Motorola pela iniciativa, pois trouxe bandas pouco conhecidas, o que revela um saudável desejo de arriscar.
Escrito por Alessandro Pinesso às 14h15
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A única primeira-dama bacana que eu vi se foi.

Ruth Correa Leite Cardoso (19.07.19030 / 24.06.2008)
Aos 39 anos de idade, lembro-me de começar a ter alguma idéia sobre política, autoridades etc., quando tinha uns 9, 10 anos. A primeira primeira-dama que me vem à mente é Dulce Figueiredo, esposa do já finado e então presidente-general João Baptista Figueiredo (1979-1985), uma perua que, dizem as más línguas, dava mais que chuchu na cerca – e não para o marido. Over, espalhafatosa e deselegante, era péssima. Depois veio a mulher do Sarney, cujo nome não me recordo. Em termos de realizações, acho que nunca fez nada digno de nota. Aí, veio outra perua, a dentuça e cafona Rosane Collor, mulher do mega-picareta que assumiu a presidência em 1990. Aí, veio Dona Ruth, uma mulher que mandou bem em praticamente tudo o que decidiu fazer. Doutora em Antropologia pela USO, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia (NY) e foi professora no exterior. No mandato do marido (1995-2002), fundou o projeto Comunidade Solidária e fazia parte do conselho de uma ONG que deu continuidade aos projetos que iniciou durante a gestão FHC. Isso sem falar que era uma das maiores referências sobre antropologia no Brasil e foi autora de diversos livros. Teve, ao menos, uma boa morte, pois foi tudo muito rápido. Hoje, temos Dona Marisa no Palácio do Planalto. OK, ela tem origem humilde, mas por acaso faz alguma coisa além de gastar dinheiro público no cabeleireiro e ficar plantada ao lado do marido? É isso. É um vaso colorido. E só.
Escrito por Alessandro Pinesso às 16h26
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Domingão SPFW Verão 2008/2009. Cobertura incompleta, como sempre.

Um dos vários painéis de inspiração japonesa na decoração. Foto: Alessandro Pinesso
Um ano depois, estamos de volta à SPFW. E, novamente, num domingão. Neste ano, com uma novidade: Andar com quem tem crachá de imprensa é uma mão na roda (leia-se minha irmã e o amigo, Didi). Evitamos a fila da entrada. Entramos em vários lounges para ver o movimento e, de quebra, tomar uma ou outra taça de prosecco. Com o tal crachá, entra-se em qualquer lugar, exceto nos desfiles, onde ele, sozinho, não basta. É preciso ter o convite. Mas, enfim, vamos ao ambiente. Desta vez, a inspiração partiu do centenário da imigração japonesa, o que rendeu belos painéis (vide foto). E duas exposições: uma de quimonos tradicionais e outra com looks de estilistas consagrados, como Kenzo, Issey Miyake, Comme des Garçons, entre outros, ao lado de jovens talentos oriundos das escolas de moda nipônicas. Muito interessante contrapor o universo do Japão tradicional com a vanguarda da moda. Os orientais, apesar de sutis, vão muito além do óbvio e propõem novos recortes, volumes e estruturas nas roupas, com algumas peças que podem ser consideradas obras de arte.
Nesta edição, fomos novamente como convidados de Mário Queiroz, que fez um desfile de moda masculina inspirado na optical art, principalmente no trabalho do grande Jesús Soto. O resultado agradou muito, com tons de cinza, branco, preto e amarelo. Até dourado entrou na composição e ficou bom, coisa que me surpreendeu, já que não sou muito adepto desta cor. Gostei muito de um sobretudo branco e de um paletó que parece de smoking, preto com as linhas da gola bem destacadas em branco. Visual para fechar o tempo em qualquer lugar...rs. O que eu acho que não adianta muito apostar são os shorts curtos demais. Não tem jeito, fica muito gay. De repente, quando chegarem às araras da loja, talvez ganhem uns centímetros adicionais e fiquem mais usáveis.
Como sempre, as mulheres mais bonitas do lugar estavam longe das passarelas. É um desfile de mulher bonita de todos os estilos, tamanhos, raças e cores. E muitas figuras exóticas. Desta vez, a repórter oriental esquisitíssima e feíssima (falei dela nas outras edições) não deu as caras. Na primeira fila do desfile do Mário, estava a socialite Marina de Sabrit e o maridão. Agora há menos gente de calça skinny (ainda bem), já que a coisa estava ficando padronizada demais. Há os que entram ali não se sabe como e tiram fotos de tudo, como os turistas japoneses de décadas atrás. E, claro, os famosos e o chamado “efeito mariposa”, atraindo as luzes e os flashes das câmeras. Talvez pelo domingo ou pelo frio ou pelo fato de não ser mais novidade, vi menos carão, menos gente metida. Isso é bom. Ah, e antes que alguém pergunte, não vi a Gisele. Saí antes dela chegar...rs.
Escrito por Alessandro Pinesso às 12h05
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“Falsa Loura”, nova incursão de Carlos Reichenbach no universo operário.

Dr. Vargas (Bruno de André) contempla o pedaço de mau caminho Silmara (Rosanne Mulholland) em cena de "Falsa Loura". Foto: divulgação.
Pois é, todo mundo ficou indignado com a prepotência, a arrogância e a cara-de-pau do reitor da UNB, Timothy Mulholland, que teve a pachorra de torrar meio milhão de reais de verbas públicas para decorar seu apartamento, com direito a lixeira elétrica e uns seis televisores de plasma. A indignação se completa ao ver, em pleno século XXI, alguém ostentar um bigodinho ridículo como aquele. Mas, se tem uma coisa boa que esse Timothy fez foi ter botado no mundo a filha Rosanne. Fui conferir o mais recente filme do Carlão Reichenbach, “Falsa Loura” e saí do cinema embasbacado com a beleza da atriz de 26 ou 27 anos (não achei a data certa, só o ano). Ela tem uma coisa meio Angelina Jolie, com aquela boca carnuda entreaberta, meio isabelle Adjani, com aquele nariz atrevido, meio sei lá, mas é linda. Embora ainda seja pouco conhecida, faz teatro desde os 12 e desponta, ao lado de Hermilia Guedes, como umas das novas musas do cinema brasileiro. Fez também “Bellini e o Demônio” e “A Concepção”, filmes que ainda não vi. Embora ainda possa evoluir como atriz, Rosanne prova na tela que tem talento. No filme, ela é Silmara, que trabalha numa fábrica e paga as contas da casa na perifa que divide com o pai esquisitão e desempregado, Antero (João Bourbonnais – eita filme com elenco de sobrenome complicado), ex-presidiário com metade do rosto queimado. A família ainda tem Tetê (o/a drag Léo Aquilla), cabelereiro que chama o pai de “puto” e, claro, não mora sob o mesmo teto.
No início, Silmara é apresentada como uma enxerida, metida a besta, que esnoba as colegas operárias com sua cara de princesa e o corpão de miss. Mas, aos poucos, nota-se que a menina é esforçada, sustenta o pai e ainda dá uma belo tapa no layout da colega Briducha (Djin Sganzerla, filha do famoso diretor Rogério e mais um nome estranho no elenco). Como toda proletária que se preze, é tiro e queda que Silmara seja caidinha por uns ídolos pop. No caso, Bruno de André (o galã Cauã Reymond, outro com um nome daqueles), líder da banda Bruno e seus Andrés (graaande nome). Depois de dar o já citado tapa na coleguinha antes feiosa, ambas vão ao show da tal banda e, ali, Bruno se encanta com Silmara e passa um final de semana inteiro lambuzando os beiços com ela. E dá-lhe decepção, pois a guria percebe que tudo o que rapaz queria era mesmo se divertir naquele playground.
Bem que o Carlão poderia ter colocado outra palavra na boca de Silmara quando uma amiga pergunta quanto custa o ingresso para o tal show. Ela diz: “Cem pratas”. Cem “pratas”? Nossa, isso é velho demais, parece aqueles filmes de caubói que eu assistia quando era moleque. “Quanto você aposta, Joe?”. “Cem pratas, Buck”. Bom, mas tem várias compensações, como a linda cena onde Silmara beberica licor de menta e jogam nela uma luz verde, como que se a menta iluminasse seu rosto. Bacana.
Carlão é bom diretor, isso não se discute, mas também não é bobo nem nada e, sempre que pode, mostra as meninas bonitas como vieram ao mundo. Tudo bem, muitos outros diretores de renome já fizeram isso Pelo menos o danado tem bom gosto. A câmera também é muito boa, valoriza a atuação do elenco e a graça das atrizes.
Nessas, surge um misterioso advogado que aparece para falar com o pai, Doutor Vargas (Bruno de André – olha só de onde veio o nome da banda!). Fica evidente que ali tem trambique, só mesmo ela para acreditar que o pai um dia deixaria a picaretagem de lado. Quem me surpreendeu bastante foi Suzana Alves, a ex-Tiazinha, que perdeu o jeito de menina safada e virou mulher. Ela está super à vontade como uma espevitada colega de fábrica de Silmara, o que revela bom timing para papéis cômicos.
Depois, aparece um “trabalho” para Silmara fazer. Ela tem que passar um fim-de-semana com um cara e seu filho numa fazenda. E qual não é sua surpresa ao descobrir que o “cliente” é ninguém menos que Luís Ronaldo (Maurício Mattar), o cantor romântico-brega por quem ela baba todos os dias ao contemplar os pôsteres nas paredes de seu quarto. Além de dar uminha(s) com o ídolo, ainda sobra para ela a tarefa de iniciar sexualmente o guri. Eita moleque de sorte! Na manhã seguinte, contudo, ela vê que, mais uma vez, foi tudo uma grande ilusão. Pelo menos recebe o cachê em dobro.
Não é um grande filme, mas é bom, tem cenas legais, muitas delas divertidas, e o roteiro tem qualidades. Explora de maneira decente o cotidiano de muita gente desse país e fala sobre aparências, honestidade, sonhos, ilusões. Coisas que fazem parte da vida de todos, independente do número de dígitos depositados na conta bancária. Embora seja um tema já bastante explorado, o mote “as aparências enganam” merece ser revisitado sempre, pois, em tempos onde a aparência deixou de ser importante para virar obsessão, é uma verdade quase sempre deixada de lado. Ah, se toda a falsidade deste mundo se restringisse às madeixas das louras tingidas...
Pra fechar, uma curiosidade: o gorducho dono do clube Alvorada é a Mamma Bruschetta, o drag que aparece nos programas femininos da TV Gazeta. Impossível me enganar, porque via o sujeito todo dia quando trabalhei por lá. E mais uma: Carlão, ao melhor estilo Hitchcock, faz uma aparição engraçada numa cena com um sujeito de muletas. E por hoje e só.
Escrito por Alessandro Pinesso às 14h34
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SESC ameaçado de intervenção
Mudança de lei proposta pelo governo ameaça o bom funcionamento da instituição.

Saída do SESC Santo André, SP. Foto: Alessandro Pinesso
Ano passado circulou pela web uma informação preocupante que, ao que tudo indica, continua valendo. Todo mundo, mesmo não sendo freqüentador assíduo de atividades culturais, sabe da importância do SESC. Muito mais que cultura, promove atividades voltadas às crianças e idosos, inúmeros cursos gratuitos ou a baixo preço, aulas de ginástica, yoga, dança, entre tantas outras coisas bacanas. Só no estado de São Paulo são 31 unidades. Vou publicar aqui alguns trechos da carta de Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do SESC SP. Peço a todos que divulguem a notícia para que o governo não faça (mais) uma grande bobagem.
“...o governo federal lançou medidas para melhoria da formação técnica dos jovens brasileiros que, do modo como estão sendo propostas, por mais bem intencionadas que sejam, constituem ameaça de uma intervenção do Estado em uma entidade privada. O projeto, em resumo, pretende rever a distribuição dos recursos do impropriamente chamado Sistema S. Determina que boa parte da arrecadação dessas entidades seja remanejada para um novo Fundo destinado à formação técnica. O fato, porém, é que as entidades do chamado Sistema S são em si resultado de Fundos já criados, lá nos anos 40, em parte, com a mesma finalidade. O remanejamento dos recursos desses Fundos para outro novo Fundo, no entanto, implicará na restrição drástica da diversidade e do alcance da reconhecida ação do SESC, em prejuízo da educação permanente promovida diariamente a seus milhares de freqüentadores assíduos.”
“Tornar a Educação meramente técnica, burocrática e pragmática, dissociando-a do universo simbólico, subjetivo, crítico e criativo, cerne da Ação Cultural, é um evidente retrocesso, fruto de visão flagrantemente obscurantista. Certo de que compreenderão a gravidade dessa perspectiva, escrevo a vocês, formadores de opinião, representantes de classes, artistas, pensadores, amigos e parceiros do SESC para que se manifestem, pelos meios ao seu alcance, em prol da continuidade de nosso trabalho. Um projeto que, afinal, construímos juntos.”
Para assinar a petição contrária a esta medida, acesse o link: http://www.petitiononline.com/gg1jg2fh/petition.html
Escrito por Alessandro Pinesso às 16h07
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Por quê?

Foto: PhotoStock
Por quê...
...os carros dos adeptos do estilo country têm sempre a traseira recoberta de adesivos?
...mulheres não tão em forma assim insistem em mostrar a barriga totalmente fora de forma com piercing no umbigo?
...alguns homens de meia-idade tingem os cabelos e usam barba branca?
...muitos homens de meia-idade tingem os cabelos de acaju?
...a molecada gosta tanto de beber cerveja em posto de gasolina?
...ainda há tanta gente de bigode pelas ruas?
...o povo fala tão alto nos ônibus e metrôs da vida?
...as pessoas param ou diminuem o ritmo para ver um acidente?
...a molecada usa gorro enfiado na cabeça sob um sol abrasador?
...o povo usa chinelo de dedo no inverno?
...as meninas de cabelo enrolado aplicam um produto melequento com cheiro esquisito?
...tanta gente usa pochete? E a tiracolo?
Mais porquês? Envie sua sugestão!
Escrito por Alessandro Pinesso às 17h15
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Mondo Bizarro. Quinta-feira, 03 de abril de 2008.

Foi quase isso o que vi no busão, exceto pelo gorro. Foto: http://www.adventureassociates.com
Tem coisas que só acontecem na cidade grande. Como a cena que pude presenciar na última quinta-feira, dia 3, por volta de 19h10, dentro de um ônibus, na Brigadeiro Luiz Antônio, logo depois da São Gabriel. Estava eu sentado no fundão e o metal do Black Label Society invadia meus tímpanos. Alheio a tudo, observava a paisagem ainda úmida da chuva recente. De repente, começo a ouvir o som inconfundível da flauta pan e de algo que lembrava um instrumento de cordas. Pensei: “Ué, tem gente ouvindo música aqui no busão?”. Olhei para a frente e vi um daqueles tipos andinos – talvez um boliviano – tocando sua flauta e algo assemelhado a um cavaquinho. Volta e meia, ele parava de tocar e mostrava um desenho indicativo dos Dez Mandamentos. Aquela lenga-lenga começou a me incomodar. Resolvi descer umas quadras antes da Paulista para escapar do pregador com sotaque. Ele estava fazendo uma venda promocional de seus CDs – a 10 reais cada - com músicas supostamente religiosas. Em pé, postado diante da porta que demorou intermináveis minutos a abrir, ainda pude ouví-lo dizer: “Bamos loubar a Deus” e, depois, um “Amén, irmaon”. Isso sim é que é globalização, sincretismo religioso e tudo mais. Pois é, o mundo mudou. Há uns 20 anos, vi uma cena parecida, mas o músico em questão trazia apenas seu violão e interpretou “Guantanamera”. O velho hino cucaracha já não surte o mesmo efeito. Agora, só mesmo apelando para as tábuas da Lei...
Escrito por Alessandro Pinesso às 18h15
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Bem-vindo ao estranho mundo do ar condicionado

Texto que escrevi em 2001 e resolvi postar. Foto: http://carsbabes.blogspot.com/
Imagine um mundo limpo, asséptico, silencioso, com aroma de couro de primeira e perfumes caríssimos. Um mundo perfeito, sem violência, imaculado. Então, seja bem-vindo ao Mundo do Ar Condicionado.
Aqui, a opinião alheia não tem a menor importância. Aliás, não só a opinião, ninguém tem a menor importância. Quem se atreve a romper esta barreira é sumariamente ignorado. Gritar, bater no vidro, buzinar, xingar, nada disso surte o menor efeito.
As pessoas que vivem neste universo engaiolado não sofrem influência alguma do mundo exterior. Saem de suas casas e apartamentos equipados com os mais modernos aparatos de segurança dirigindo carros de luxo, importados e blindados. Em alguns casos se dirigem ao trabalho. Ou a bons restaurantes, vernissages, soirées, coquetéis, salões de beleza de alto nível, spas e também shopping centers. Todos locais providos de excelentes sistemas de ar condicionado, é claro.
O leitor mais afoito pode sair em defesa destas frágeis criaturas, argumentando que qualquer afortunado tem o direito de aproveitar as vantagens de uma ou mais contas bancárias bem recheadas. Óbvio que sim. Todo mundo, salvo raras exceções, gosta de viver bem, cercado de confortos. Nada contra carros luxuosos, muito pelo contrário. O problema não é esse. Como se diz, o buraco é mais embaixo.
O que irrita nessas pessoas é a atitude. Que pode ser arrogante, agressiva ou de total alienação. Para elas, as ruas são como uma extensão de suas garagens, como vastas alamedas que as levam a seletos paraísos de consumo, beleza e entretenimento. Errados são os outros. Afinal, porque reclamar quando, no trânsito, mudam de faixa repentinamente, sem sinalização. Quando param em fila dupla para apanhar seus rebentos nos colégios mais exclusivos da cidade. Quando falam ao celular, fumam seus longos cigarros de filtro branco e ostentam mais ouro que um altar de igreja barroca. Tudo isso ao mesmo tempo em que estão dirigindo, é claro. E sem viva voz ou fones de ouvido...
Dinheiro traz, acima de tudo, uma liberdade que pode se confundir com felicidade. Não é preciso fazer contas para ver quanto sobra – ou falta – no final do mês. Viajar ao exterior é tão simples quanto um fim de semana na praia. Mas, quando tudo isso é o centro de sua vida, a liberdade se transforma numa camisa de força. O indivíduo passa a viver em função das aparências, da ostentação e do exibicionismo desbragado.
Felizmente, existem aqueles que se preocupam com o que acontece à sua volta. E, sem alarde, ajudam outras pessoas a ter uma vida mais digna. Infelizmente, estes são uma pequena minoria de uma parcela da população que já é diminuta. Falta a estas pessoas a lucidez de entender que não é o caso de lutarem por uma fatia maior do bolo. Mas, ao contrário, lutar para que o bolo cresça. Aí, naturalmente, a fatia será maior. E bem mais saborosa.
Escrito por Alessandro Pinesso às 12h28
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Rap, a música de protesto contemporânea.
Surgido nas periferias urbanas dos EUA, a batida hip hop chegou ao Irã.

Yas, o rapaz que enerva os aiatolás. Foto: http://yasmusic.blogspot.com
Alguns dos gêneros musicais surgidos no ocidente se espalharam pelo mundo, como foi o caso do jazz e do rock. Mas, depois de assistir a uma matéria no Jornal da Globo falando da perseguição sofrida por rappers iranianos, não resta a menor dúvida: o rap é o gênero musical de maior penetração nos tempos modernos, o que está enfurecendo os aiatolás. Um dos principais nomes da cena local, o rapper Yas proclama: “Hoje, vocês me tratam a paulada e chicotada/Amanhã, vão pedir meu autógrafo”, referindo-se à temida Polícia de Costumes, controlada pelo governo. Segundo a reportagem, os barbudos de turbante estão provando de seu próprio veneno, já que, em 1979, os ideais da então nascente revolução islâmica foram disseminados em prosaicas fitas cassete, pois o governo do xá Reza Pahlevi, assim como o deles, controla as rádios e as emissoras de TV.
Hoje, a internet alardeia a música dos rappers locais mundo afora e, também, serviu de porta de entrada para o amigo jornalista e fotógrafo Caio Vilela conhecer melhor o Irã. Depois de fazer contatos através de comunidades no Orkut, Caio publicou, na edição de agosto de 2007 da revista Playboy, uma bela matéria sobre os 30 dias que passou naquele país. Contou que, na vida privada, os jovens fazem suas festas regadas a álcool, as mulheres soltam seus cabelos, enfim, vivem como gente normal. O problema é em público, onde até encontros entre homens e mulheres são proibidos. Seus amigos iranianos contaram que, certa vez, a polícia invadiu uma festinha e os homens foram punidos com 40 chibatadas cada um, verdadeiro arroubo medieval em pleno século XXI.
Rap em escala global
O fenômeno certamente está ligado, num primeiro momento, ao avanço das comunicações via satélite e, nos últimos 10 anos, com a internet. Mas, por outro lado, acho que a simplicidade do rap conquista adeptos de diversas culturas. Não é preciso ser músico para fazer rap (que, significa, na origem, rhythm and poetry). Basta um pedaço de papel e uma caneta para anotar as letras, sempre quilométricas. A batida, sincopada, é por vezes hipnótica como como os mantras indianos, as canções árabes etc. E, mesmo quem não tem uma bateria eletrônica pode se valer do beat box, recurso vocal que imita a bateria, scratches (efeito produzido pelo DJ com discos de vinil) e outros efeitos típicos da música hip hop.
Se nos já longínquos anos 60 o folk era a música de protesto “padrão”, no final dos 70 surgiu o punk e, dos 90 para cá o rap ganhou as periferias do planeta por ser muito mais simples, direto e contundente. E, mesmo porque, é praticamente impossível imaginar, nos dias de hoje, um jovem pobre, seja branco, negro ou de qualquer outra etnia, empunhando um violão ou mesmo uma guitarra para protestar. O mundo mudou e, em alguns aspectos, não foi para melhor.
Hoje, a música folk vive uma certa efervescência nas vozes de garotas brancas de classe média que desafogam seus anseios dedilhando o violão (a trilha de “Juno”, que citei no post anterior, é quase toda nesse naipe). E, também, nos acordes amalucados de artistas como Devendra Banhart e Coco Rosie. Nada contra, mas muito distantes de Bob Dylan e Joan Baez, reverenciados como os paradigmas do gênero.
O rap “original”, hoje
Deixei de acompanhar a cena hip-hop com a atenção de outros tempos, pois tudo soa parecido. Não tenho ouvido nada de diferente, acho tudo igual, pasteurizado mesmo. Você liga a TV e vê os mesmos videoclipes, todos em câmera lenta, com fotografia bem contrastada, carrões com rodas cromadas, popozudas de micro-shorts e sujeitos de braços bombados e tatuados, com cara de poucos amigos e correntes de ouro penduradas pelo corpo. Nos anos 90, ouvia muito Cypress Hill, Planet Hemp, Beastie Boys e até mesmo um pouco de Racionais MC. Antes ainda, Public Enemy, também Beastie Boys, DeLa Soul, Naughty by Nature, entre outros. De uns anos pra cá, só gostei dos cubanos do Orishas (que já não são mais os mesmos), das pesquisas do produtor Madlib (que esteve aqui em 2002) e do Gnarls Barkley. Mas, enfim, o rap segue seu curso por outras terras. E continua deixando gente de cabelos em pé e com as barbas de molho.
Escrito por Alessandro Pinesso às 12h29
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Juno, um filme na contramão do cinemão.

Juno (Ellen Page) e seu hambúrguer-fone. Foto: divulgação.
O que pode ser pior para uma adolescente que uma gravidez inesperada? Esta é uma das questões levantadas em “Juno”, do diretor canadense Jason Reitman (do também ótimo “Obrigado por Fumar”, de 2005). Longe de ser mais um filme xarope com “temática adolescente”, foi muito bem escrito pela merecidamente oscarizada Diablo Cody, aquela com tattoo no braço e vestido de oncinha na entrega do prêmio (a foto dela está dois posts abaixo).
A suposta abordagem teen é um pretexto para críticas mordazes sobre algumas das mazelas da sociedade norte-americana (e, por tabela, ocidental). A maioria dos comentários, ácidos e espertos, saem da boca de Juno, vivida por Ellen Page. A atriz, que completou 21 anos há poucos dias, engana bem como uma adolescente de 16 anos devido ao seu porte físico e carinha de menina.
Há várias sacadas bacanas, como o nome da protagonista. Ela explica que seu pai era louco por mitologia greco-romana e, se fosse homem, se chamaria Zeus. E vai além, dizendo que Zeus comeu deus e o mundo mas era casado de verdade somente com Juno...
Num primeiro momento, Juno pensa em abortar, mas, depois de visitar a clínica, resolve tomar outra atitude. Procura nos classificados por uma família interessada em adoção. E acha o casal de yuppies Vanessa (a gata Jennifer Garner, a mesma do abacaxi “Electra”) e Mark Loring (Jason Bateman, que me lembra muito o irlandês Kenneth Branagh). Vanessa é designer, certinha e chatinha. Mark é gente boa, um compositor de jingles cuja maior frustração é não ter se transformado num pop star como seus ídolos da Seattle dos anos 90. Juno, fã de Iggy Pop e Stooges, logo se identifica com o cara, que a interpreta mal...
Muito interessante a forma como Juno interage com o casal. Boa parte das críticas do roteiro vêm destas cenas. Assim como é legal a forma como Juno se relaciona com o pai e a madrasta (J.K. Simmons, o chefe de Peter Parker em “Homem Aranha” e Alison Janney, de “Hairspray”, ambos ótimos). Uma família normal, com suas crises, mas que procura se entender, uma raridade, seja hoje ou no passado.
Reitman dirige com mão leve, mas nem por isso superficial. Seus personagens transmitem emoções reais e as situações são totalmente plausíveis. Destaque também para o namoradinho de Juno, o nerd e corredor Paulie Bleeker (Michael Cera) e sua melhor amiga, Leah (Olivia Thrilby, muito sexy).
A trilha é basicamente indie, mas naquela linha mais suave, composta e interpretada pelo grupo nova-iorquino de folk Moldy Peaches, além de canções de Belle and Sebastian, Velvet Underground e até mesmo Hole e The Kinks. Vi o filme numa tarde chuvosa de domingo e caiu bem.
Escrito por Alessandro Pinesso às 14h03
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"Senhores do Crime", grande filme de Cronenberg

Nikolai (Viggo Mortensen), como bom russo, não dispensa sua Stoli. Foto: divulgação.
Atrás do balcão de uma farmácia em Trafalgar Square, Londres, um imigrante indiano atende a uma cliente. Ato contínuo, uma adolescente trôpega e descalça entra na farmácia. Vai até o balcão e pede ajuda. Tomando-a por uma junkie, o homem responde que, para comprar Metadona, é preciso receita. A câmera mostra seus pés nus e uma poça de sangue se formando. A jovem desmaia. E assim começa “Senhores do Crime" (Eastern Promises), o mais recente filme da lavra de David Cronenberg. Noutra cena, um velho barbeiro conversa em russo com seu cliente. Entra um garoto, perturbado e estranho. Poucas frases depois, o barbeiro passa a navalha ao garoto, que rasga a garganta do infeliz sentado na cadeira, exemplificando a maneira empregada pela máfia russa para resolver suas questões.
Cronenberg escapa com maestria dos clichês de um gênero elevado ao status de arte pelos poderosos chefões de Coppola. Posso estar enganado, mas creio que o diretor canadense está imprimindo um novo rumo ao seu trabalho. O fascínio pelo bizarro e o grotesco talvez o tenha levado ao estudo dos descaminhos da alma humana, particularmente os estados mais extremados. Esta guinada teve início com “Marcas da Violência”, de 2005. O título original, Eastern Promises, ou Promessas do Leste, se refere, entre outras interpretações, aos mundos e fundos (mais fundos do que mundos, a bem da verdade) prometidos às belas moçoilas da Europa Oriental que, ao chegarem aos Estados Unidos e a outros países europeus, são confinadas e passam a viver como prostitutas.
O roteiro, enxuto e bem costurado, faz os minutos passarem voando. As atuações impecáveis conferem uma tremenda humanidade e verossimilhança aos personagens. No Oscar, a obra foi eclipsada por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, outro grande filme. Contudo, merecia mais que a indicação de Viggo Mortensen na categoria de melhor ator. Mortensen, aliás, repete a parceria com Cronenberg iniciada no anterior “Marcas da Violência”. O site imdb.com informa que o ator passou semanas viajando sozinho, sem intérprete, dirigindo por Moscou, São Petersburgo e os Montes Urais para aprimorar o ouvido e aprender o sotaque siberiano. Leu livros sobre Vory V Sakone (Ladrões na Lei, como é chamada a máfia russa) e sobre os significados das tatuagens de seus membros, normalmente feitas na prisão. Para os iniciados, trata-se de um currículo impresso na pele. A rosa dos ventos, ou estrela, é a principal marca, geralmente feita no peito, acima do coração, e no joelho, pois um membro deste “clã” não se ajoelha perante ninguém. O ator envergou nada menos que 43 tatuagens falsas, aplicadas como aqueles decalques encontrados nas embalagens de chicletes.
Voltando ao filme: a jovem que desmaia na farmácia vai parar no hospital. Os médicos conseguem retirar seu bebê ainda com vida, mas ela morre. Uma enfermeira, Anna (a bela e sempre competente Naomi Watts), encontra com ela um diário. Nota que está todo escrito em caracteres cirílicos e, dentro dele, há um cartão com o endereço de um restaurante russo. Nesta busca, conhece Semyon (Armin Mueller-Stahl), o dono do restaurante e chefe mafioso, seu filho, Kirill (Vincent Cassel), e o motorista e pau-pra-toda-obra Nikolai (Viggo Mortensen).
Há muitas cenas boas neste filme que merece ser visto em tela grande. Contudo, sobreviverá bem no DVD, já que a maioria das cenas acontece em locais fechados. Uma delas, de arrepiar os cabelos, mostra Nikolai numa sauna lutando nu e desarmado contra dois chechenos armados com punhais. Noutra, Nikolai apaga um cigarro na própria língua, em um dos gestos mais bad ass que já vi no cinema. Mortensen construiu uma atuação irrepreensível, com um personagem complexo e cheio de nuances bastante sutis. Um vilão para figurar entre os grandes do cinema moderno.
Semyon, o restauranteur, também está ótimo. Um criminoso violento e implacável, porém capaz de tocar violino com delicadeza e distribuir aos convidados pedaços do bolo de aniversário que sobra em pequenas caixinhas ornadas com pétalas de flores. Um doce de pessoa! Kirill é um idiota que tenta de todas as formas angariar a simpatia do pai, que o trata mal. O filho, por sua vez, idolatra (e também deseja) a figura de Nikolai, frio, eficiente e cruel.
Em termos de forma, é um filme clássico, com fotografia sóbria, sem malabarismos de câmera ou idas e vindas no tempo. É obra para ser apreciada nos detalhes e que faz pensar tão logo surgem os créditos e – com eles – o retorno da pulsação ao ritmo normal. Não perca.
Bônus: curiosidades e informação extra
Lendo sobre o assunto, descobri que a máfia russa sempre existiu, mas começou a ganhar corpo com o mercado negro, que cresceu bastante com a falta de gêneros essenciais agravada durante o governo de Leonid Brezhnev (1964-1982). Com o colapso do regime, em 1989/90, o governo distribuiu títulos de suas empresas à população. Sem dinheiro e sem nada para comprar, pessoas comuns recorriam à máfia e trocavam seus títulos por qualquer coisa, de cigarros a perfumes, de bebidas a jeans Levi's 501. E, assim, o crime adquiriu uma série de empresas de forma absolutamente legal. A partir de meados da década passada, também assumiu o controle de uma série de bancos. Ou seja, é cada vez mais difícil desatar os nós da organização. Em janeiro, porém, sofreu um duro golpe com a prisão de Semyon Mogilevich, considerado o maior chefão da máfia russa nos dias de hoje. O cara tinha nada menos que 17 passaportes e nomes falsos. Para encerrar, um lance divertido que ocorreu com Viggo. Após um dia de filmagem, ele foi direto para um bar e não tirou as tattoos falsas. Um grupo de jovens russos estava no local e ficou absolutamente apavorado com o que viu. Ou seja, a caracterização estava mesmo de primeira.
Escrito por Alessandro Pinesso às 20h47
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Um Oscar mais próximo da realidade.
Premiar quatro estrangeiros e uma ex-stripper é, sem dúvida, um passo adiante.

Em sentido horário: Javier, Diablo, Tilda e Marion. Day-Lewis já é café-com-leite. Fotos: Reuters.
Os quatro estrangeiros: Daniel Day-Lewis (ator), Marion Cotillard (atriz), Javier Bardem (ator coadjuvante) e Tilda Swinton (atriz coadjuvante). A ex-stripper: Diablo Cody (roteiro original por “Juno”). A Academia deixou o cinemão de lado e laureou os atores de verdade, talhados para o ofício. Vamos a eles. Sobre Daniel Day-Lewis, não há muito a dizer, já que o inglês abocanha seu segundo prêmio; o primeiro foi por "Meu Pé Esquerdo", em 1990. Ator extremamente versátil, capaz de interpretar soberbamente qualquer personagem, já é "de casa". Novata, ao menos aqui, é a francesa Marion Cotillard, que dá um show de entrega, inclusive física, para viver Edith Piaf. Ela própria se surpreendeu e ficou muito emocionada ao receber o prêmio, algo bonito de se ver. O filme, embora correto, carece de ousadia, pois é todo feito nos moldes do melodrama consagrado por Hollywood. Cotillard, no entanto, executou um trabalho tão impecável como o de sua equipe de maquiagem, que também levou uma estatueta para casa. A atriz, que não é baixinha e é bem bonita, foi reduzida àquela coisinha mirrada e sem graça que era Piaf (somente no aspecto físico, claro). Gosto quando o Oscar premia o trabalho de técnicos que tiram leite de pedra. O que não foi o caso da categoria figurino, que se impressionou com o luxo extravagante de “Elizabeth” e deixou de fora a sutileza de “Across the Universe”.
O espanhol Bardem já conheço de outros carnavais, há cerca de 15 anos, vendo os filmes malucos de Bigas Luna, como “As Idades de Lulu” e, principalmente, “Ovos de Ouro”. Se você nunca viu Bigas Luna, mas aprecia a anarquia dos primeiros filmes de Almodóvar, vai gostar. Bardem, assim como o outro intérprete vencedor da noite, Daniel Day-Lewis, é um ator visceral. OK, todo mundo fala isso, mas fazer o quê, é a palavra que melhor define seu estilo de atuar. Seu vilão em “Onde os Fracos Nâo Têm Vez” é, no mínimo, saboroso. O prazer que sente ao dar cabo de suas muitas vítimas contagia a platéia.
Bom, e temos a exótica Tilda Swinton, cujo trabalho vi pela primeira vez em “Orlando, a Mulher Imortal”. Pálida, ruiva, dona de uma beleza bastante peculiar, não tive a oportunidade de conferir o filme que a consagrou neste Oscar, mas não tenho a menor dúvida de que mandou bem, pois sempre cumpre o que lhe é solicitado. Gostei muito do seu discurso de agradecimento, bem britânico, um tanto blasé, com aquele sotaque perfeito. E, para completar, estava bem vestida e com o cabelo bacana.
Agora a ex-stripper. Diablo Cody errou feio no figurino, mas acertou no corte de cabelo e, segundo José Wilker, no roteiro de “Juno”, com diálogos excelentes. Vou confiar na opinião do Zé que, embora global, é um sujeito que não se encaixa no padrão vigente na emissora e também é cinéfilo com conhecimento de causa. Aliás, o Zé falou outra coisa com o qual concordo: tanto Bardem quanto Day-Lewis são atores “na medida”, não vão além do que o papel exige (ao contrário de Al Pacino que, nos últimos anos, pecou várias vezes por excesso).
“Onde os Fracos Não Têm Vez” confirmou as previsões e levou, além do prêmio dado a Bardem, Direção, Roteiro Adaptado e Melhor Filme. Merece, é um filmaço, sobre o qual já escrevi neste espaço (vide texto abaixo), e que, para os olhos mais atentos, é um tapa na cara dos EUA e vai muito além de um “western moderno”, como disseram alguns. A animação “Ratatouille” é excelente, já nasceu com status de clássico do gênero. A cena onde o ratinho pula de carrinho em carrinho dentro da cozinha já vale o filme, pela câmera tresloucada e inovadora. Houve vozes que reclamaram da ausência de “Sweeney Todd”, de Tim Burton, e “Senhores do Crime”, de David Cronenberg, das principais categorias. O primeiro levou Direção de Arte e o segundo, foi indicado na categoria de melhor ator com Viggo Mortensen, mas não levou. Registro, aqui, o fato.
E vou falar de uma coisa que talvez poucos mencionem. “O Ultimato Bourne”, do competente Paul Greengrass, levou três prêmios técnicos: Montagem, Efeitos Sonoros e Edição de Som. A série do agente Jason Bourne, com três filmes, é a prova de que é possível unir inteligência e ação no mesmo pacote. Matt Damon está muito bem no papel e, nos dois primeiros filmes, temos a presença da bela alemã Franka Potente (com um visual bem melhor do que em “Corra, Lola, Corra”). O elenco de apoio conta com nomes experientes e carismáticos, como Joan Allen e Brian Cox. Vi o último da série no cinema, numa sala bem equipada, e foi incrível, uma experiência vertiginosa e muito estimulante. Se possível, alugue a série toda em DVD. É diversão garantida.
Este foi o Oscar 2008, amiguinhos. O apresentador, Jon Stewart, ágil, esperto e muito competente. Nicole Kidman, bela e impávida, como sempre. Johnny Depp, mal vestido, como sempre. E Jack Nicholson, sarcástico e divertido. Como sempre.
Escrito por Alessandro Pinesso às 11h06
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Irmãos Coen de volta à velha forma.
“Onde os Fracos Não Têm Vez”, um retrato áspero e cruel dos EUA.

Javier Bardem e o corte de cabelo que, segundo ele, espanta o mulherio. Foto: www.nocountryforoldmen.com
Ver um grande filme dos irmãos Coen é sempre um prazer para qualquer cinéfilo que se preze. Autores de fitas memoráveis como “Gosto de Sangue”, “Arizona Nunca Mais”, “Barton Fink” e “Fargo”, os Coen estavam devendo um filme à altura de sua obra desde este último, exibido há pouco mais de uma década. “Onde os Fracos Não Têm Vez” é mais uma tradução um tanto equivocada do original, no caso “No Country For Old Men”, mesmo título do livro lançado em 2005 e escrito por Cormac McCarthy. Utilizando o inteligente recurso de transpor a ação para outra época – no caso, 1980 – a narrativa aborda o então nascente problema do tráfico de drogas na fronteira entre o México e o estado do Texas. Foi, inclusive, a partir da década seguinte que o Brasil se tornou uma das rotas preferencias do tráfico, já que as fronteiras norte-americanas passaram a ser ostensivamente patrulhadas.
O cinema dos Coen não se fixa num único gênero e não se rende aos padrões estabelecidos. Mesmo um filme forte e violento como este tem lá suas pitadas de humor – ainda que negro, na maioria dos casos – e ironia. Tudo começa quando Llewelyn Moss (Josh Brolin, caladão, muito bem no papel), um veterano do Vietnã que vive de bicos e da caça de animais selvagens, atira num cervo e o animal não morre, consegue fugir. Chegando mais perto, vê um rastro de sangue, de um lado, e um pitbull negro, mancando, de outro. Caminha mais alguns passos e, ladeira abaixo, depara-se com veículos abandonados e corpos baleados estendidos pelo chão. Não demora a encontrar um carregamento de heroína e um mexicano, ainda vivo, numa caminhonete. Mais adiante, outro mexicano, já morto, e uma mala recheada de dólares. Ocorre que, ao surrupiar uma bufunfa dessas, é muito raro o sujeito sair ileso. É aí que entra em cena Anton Chigurh, em mais uma interpretação visceral de Javier Bardem (detalhe: depois de se olhar no espelho com aquele corte de cabelo - veja a foto acima - Bardem exclamou: “Meu Deus! Vou ficar sem transar pelos próximos dois meses!”). Assassino profissional, louco e obstinado, Anton sai à caça de Llewelyn. Assim como o Duas Caras das histórias do Batman, a dualidade de Anton se expressa na sua mania de jogar Cara ou Coroa para decidir a sorte de suas vítimas.
Anton tem a peculiaridade de usar uma arma empregada para abater bois que lança projéteis metálicos impelidos por ar comprimido, o que rende ótimas cenas. O rastro de sangue coloca em seu encalço o cowboy Ed Tom Bell (o grande Tommy Lee Jones), um xerife à beira da aposentadoria que não encontra mais espaço nesta nova realidade. Tommy Lee Jones é um ator da estirpe de outros nomes notáveis do cinema, como Lee Marvin e Clint Eastwood, que mesclam aspereza e sensibilidade em doses certas. Sua perplexidade com os tempos que se anunciam fica evidente num diálogo travado com o velho xerife que o antecedeu, Ellis. Quando afirma que não se conforma com tanta violência, o velho lhe responde: “Isso tudo não é novidade. Esta terra é dura com as pessoas, você não pode parar o que está por vir. Achar que as coisas vão esperar por você é pura vaidade.” A escalada de violência prossegue, o que o obriga Llewelyn a sair de casa, numa cena com sua esposa que diverte o público:
Llewelyn: “Se eu não voltar, diga à minha mãe que eu a amo”.
Carla Jean: “Mas sua mãe já morreu, Llewelyn.”
Llewelyn: “Bom, entâo eu mesmo direi isso a ela.”
Além desta, poderia ficar aqui enumerando cenas saborosas, mas não sou um desmancha-prazeres. Faltou mencionar a participação - como sempre, marcante - de Woody Harrelson no papel de Carson Wells, um dos vários escroques que surgem durante a trama. Woody, que tem sotaque texano de nascença, está muito à vontade como o malandro que segue a trilha de Anton Chigurh e garante alguns dos bons momentos da história. O filme, como escrevi na abertura deste texto, é um retrato sem concessões dos EUA de hoje. Um país assolado pela violência, armado até os dentes e assustado com tudo o que é novo, estrangeiro ou lhe parece estranho. Ou seja, um país “inadequado para os velhos”, como reitera o título original. Independente de Oscar, Cannes ou seja lá o que for, é sério candidato a melhor filme do ano. Um elenco afiado, bem dirigido, com uma fotografia que retrata muito bem a aridez e amplitude daquelas paragens. A trilha apenas pontua algumas cenas e, em certos momentos, lembra a gaita usada por Ennio Morricone na trilha de “The Good, The Bad and The Ugly”, de Sergio Leone. É como um mau agouro, um abutre que sobrevoa a carniça à espera do momento certo. Vale a pena apreciá-lo na tela grande, como convém. Para maiores detalhes e curiosidades, visite:
http://www.imdb.com/title/tt0477348/ e http://www.nocountryforoldmen-themovie.com/
Escrito por Alessandro Pinesso às 12h28
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O piano funky de Horace Silver

Estilo, personalidade e alegria nas composições do grande jazzista. Foto: PhotoStock.
Comprei a coleção da Folha, “Clássicos do Jazz” e a recomendo enfaticamente a todos que gostam de boa música. Embora esteja apenas engatinhando no amplo universo do jazz, já que o rock and roll sempre foi e será minha praia, a coleção é muito bem cuidada, com repertório bem escolhido e gravações restauradas que revelam o brilho dos originais. Dos volumes recebidos até agora, fiquei particularmente entusiasmado pelo som de Horace Silver, nascido Horace Ward Martin Tavares em 9 de setembro de 1928, em Norwalk, no estado norte-americano de Connecticut. Filho de uma doméstica e de um operário, Silver teve seu primeiro contato com a música pelas canções entoadas pelo pai, nascido na ilha de Cabo Verde.Mais tarde, na adolescência, começou a tocar piano e saxofone. E teve a oportunidade de desenvolver seu talento no terreno mais do que fértil da década de 50, onde tocou ao lado de grandes como Thelonious Monk, Bud Powell e Stan Getz, que o levou a Nova York. A partir daí, Silver decolou como músico e desenvolveu um estilo suingado e funky muito antes de alguém ter noção do que era isso. Anos depois, foi apontado como um dos pilares do estilo denominado hard bop ou soul jazz. Suas gravações, ouvidas hoje, têm um frescor e vitalidade atemporais, daquelas de ficar estalando os dedos e assoviando junto. Mesmo quem não conhece jazz notará algo de familiar ao ouvir “Song for My Father”, um de seus maiores sucessos. Silver, que completará 80 anos neste ano, é um dos últimos dos grandes do jazz ainda vivos. Se você ainda não conhece o trabalho dele, experimente.
Escrito por Alessandro Pinesso às 11h26
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O turismo brasileiro fatura menos que Las Vegas

Foto: PhotoStock
Na última segunda-feira, aluguei um filme light para relaxar. No caso, “Treze Homens e um Novo Segredo” (Ocean's Thirteen, EUA, 2007), de Steven Soderbergh. É a mesma receita dos outros dois filmes, seqüência iniciada com “Onze Homens e um Segredo”, remake do filme homônimo da década de 60 (“Ocean's Eleven”) com Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr. Basicamente, um bando de escroques charmosos e bem-humorados, tiradas irônicas, figurino classe A, locações bacanas e uma trilha retrô muito boa. Enfim, voltando ao tema principal, o fato é que este último (?) filme da série traz, nos extras, um interessante documentário de 20 minutos que conta resumidamente a história e fatos pitorescos de Las Vegas, a verdadeira “Sin City (Cidade do Pecado)”. Com a prosperidade do pós-guerra, o malandro e empresário “Bugsy” Siegel enxergou naquela cidadezinha industrial do estado de Nevada uma forma de ficar ainda mais rico. Em 1946, gastou US$ 6 milhões – muito dinheiro na época – para erguer o Flamingo, considerado o hotel mais luxuoso do mundo naqueles dias. A partir daí, Vegas não parou e, ainda hoje, é a cidade que mais cresce nos Estados Unidos.
Um dia depois, ou seja, terça-feira, foi divulgada uma ampla pesquisa elaborada pelo Ministério do Turismo ou algo que o valha informando que o Brasil recebeu, em 2006, cerca de 5 milhões de turistas que gastaram US$ 4,3 bilhões por aqui. Bom número? Com certeza, muito aquém de nossas possibilidades. Las Vegas, sozinha, recebe 38 milhões de visitantes que gastam US$ 8 bilhões apenas com jogo. OK, nesse cálculo certamente estão inclusos os moradores da cidade e os visitantes norte-americanos. Mas é um número para se pensar. Só as roletas e caça-níqueis de Vegas faturam mais que o Brasil inteiro arrecada com visitantes estrangeiros.
Mais algumas curiosidades. Enquanto na maioria das cidades, tanto norte-americanas como em outros países, os edifícios ganham prestígio à medida que envelhecem, em Vegas se transformam em castelos de cartas. Ali, raramente um prédio dura mais de 30 anos. Os hotéis e cassinos mudam sempre. Ou, seja, o visitante ocasional sempre tem novidades. A arquitetura desses empreendimentos segue algumas regras. Ao entrar, o visitante percorre uma curva, jamais uma reta, para atiçar sua curiosidade e estimulá-lo a conhecer tudo. O teto é sempre rebaixado para deixar o ambiente mais acolhedor e fazer com que o visitante permaneça mais tempo por ali. E há, também, o que eles chamam de “Princípio da Mariposa”: as pessoas também são atraídas pelo brilho das luzes...
Escrito por Alessandro Pinesso às 14h19
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